Sinto-me sempre como se precisasse de
me agarrar a uma manta, isolado numa cabana qualquer, olhando pela
janela enquanto o gelo cai na rua e embranquece o chão. Fica sempre
tanto frio neste velho dia. Fica um gelo estranho dentro de mim mesmo
quando o sol abrasador queima a pele. Em que se tornaram as promessas se
não nisto? Um frio incomum que avelhenta a olhos vistos e secos?! Pela
janela vejo o vento remexer a estranha neve que não existe e que levanta
fantasmas de ti, cobertos de desapontamento. E fico vazio. Não existe
pedaço algum que aclame o teu nome, não existe voz que pergunte a razão
de fugires, não existe coração para que me importe. Adormecidas, as
lembranças já nem sonham a tua face enquanto as vejo fechadas naquele
baú poeirento. Os papéis acabaram por não passar disso e as letras
inquietas sucumbiram-se à humidade servindo apenas para atear um fogo
que de pouco cuida. Tornou-se estranho. Sentes isso, não sentes? Agora é
tarde de mais e quando me falam de ti não existe mais nada a escavar em
mim. - 2012