Vejo-te
na minha cama. Não pensei que isto se repetisse mas agora que te vejo de pernas
para o ar, olhando-me com aquele sorriso tão teu, não sei como parar. Quando te
abri a porta não soube que ia ser assim. Mesmo quando quase senti o tempo
voltar para trás pensei que ia ser estranho e desconfortável. No entanto nada
do que se passou depois foi difícil. Ainda te senti de forma maquinal. Não te
tornaste mais difícil, pelo contrário. És-me cada vez mais fácil e nem devia estar
a fazer-te isto. Mas aqui estás tu depois de toda a minha falta de promessas e
ausência de sentimentos, totalmente minha, dizendo-me para chegar mais perto.
Foi-me
fácil entrar em ti como o fiz inúmeras vezes antes. Soube bem. Redescobrir os
sinais do teu corpo, o cheiro que marcou os meus lençóis, os movimentos e os
teus pequenos talentos, o sentir das tuas unhas rasgando-me a pele das costas
enquanto eu abusava do teu prazer e entregava-te todas as minhas frustrações. Foi
um hábito. E quando terminou, sem qualquer novidade, adiei a estranha despedida
e disse-te que tinha coisas combinadas. Tu já sabias que seria assim.
Olhaste-me antes de sair do quarto, em bicos de pés para que não te ouvissem
sair, e disseste baixinho que nunca mais ias ser a mesma. Culpaste-me por isso
e saíste sem mais uma palavra.
Deitado
na cama, ouvi a porta da rua fechar e só então levantei-me para me vestir.
Tentei pensar nas tuas palavras mas não por muito tempo. Tinha coisas para
fazer, outros sítios para estar, pessoas mais importantes para falar e ter a
minha atenção. Eu sabia que irias voltar. E até lá bem podia viver sem te
lembrar.