segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

sohappyicoulddie(anditsalright)


Ao longe, avisto um furacão. Vem direito a mim, arrastando tudo em seu redor.
Penso em ti.
No meio de todo o ruído, todo o caos que dali provém, eu pouco sinto. Já passei por pior, penso, o teu silêncio já me fez mais que isto.
Penso em ti.
A forte brisa começa a arrastar-me os pés. Mais ou menos como a gravidade que submetes sobre mim. Mas com menos intensidade, menos crueldade.
Penso em ti.
Um pedaço de vidro lacera-me a face, como uma bofetada. Não arde. Não queima. Pouco me faz, pouco sinto.
Então, eu penso em ti.
Vou deixar de respirar. E só quando me apercebo disso, é que consigo fazê-lo. Finalmente.
Fecho os olhos, inspiro fundo e dou um passo em frente.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

before/after


Fizemos tantos planos. Sonhámos sobre ir aqui e ali, durante um fim-de-semana ou talvez num final da tarde. Disseste-me onde querias ir e eu prontifiquei-me a ir contigo. Não me importava onde, só me interessava estar contigo. Eu e tu. Mas, afinal, os nossos planos não eram nossos. Eram teus. Teus para partilhar com quem quisesses. Só precisavas de companhia – não de mim. E sabes o pior? Tu disseste-me. Tu nunca mo escondeste. Disseste-me que querias ir. Nunca me equacionaste.
Continuo a fazer isto a mim mesmo. Desde que te conheço. Meto todos os meus planos de parte porque, na realidade, já os faço moldados a ti. Pergunto-te primeiro, és sempre prioridade. Mesmo depois de me teres dito que não precisas de mim – mesmo depois disso. E a culpa é minha.
Tudo o que dizes sobre mim é verdade. Sou fraco. Sou-o porque te permito fazer-me isto. Não o mereço. Devia querer mais que tu. Devia querer mais do que me dás. Mas não consigo. Sou fraco. Sou muito fraco.
Mereço melhor que isto, não mereço? Talvez não.  


27/08/2019

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

listen (before I go)


Mandei-te mensagem. Há dois dias atrás, isto é. E o teu silêncio é gritante. A situação nunca se inverte, claro. Tu segues o teu caminho e eu não opino – mesmo quando dói. Mas, volta-e-meia, revivemos este déjà vu. 
Desapareces. E estando ou não, és caos. Ausentas, da minha falsa-paz, toda a felicidade que simulo. Esgravatas até ao meu âmago, rasgando tudo pela passagem, e fazes-me acreditar que a culpa é minha. E é, acredita que é.
Pode ser que, um dia, consigas perceber que não sou teu. E que, embora o culpado seja eu, que permito que intoxiques tudo em meu redor, entendas estas palavras: é tarde demais.
Não tenho mais para te dar. Sempre foste tu, sempre, mas entreguei-te tanto que me esqueci de mim. Por isso, deixo-te neste lugar em que te deixo. Onde vais ficar até que precises de mim, novamente, e onde eu estarei, sempre, mas não da mesma forma.
Mereço melhor que isto, melhor que tu.
Vou ter saudades tuas.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

till now.

Hoje sonhei contigo.
Há quanto tempo não escrevia estas palavras? Palavras que, num momento da minha vida, eram uma constante enraizada nos meus dedos. Que doíam a cada letra e que esmurravam violentamente o meu estômago.
Arrancaste tantos pedaços de mim que criaste isto, este meio-ser monstruoso e desumano.
E eu, que não antecipei as mazelas de te sonhar novamente, dou por mim a reviver este déjà-vu. Pensei que o tempo curasse tudo e pensei ter-te deixado num qualquer lugar em que ficaste. Estranho e desajustado. Quase que parece que, desde então, tenho andado à procura desse teu lugar. Mesmo que inconscientemente.
Sinto a tua falta. E só agora me dei conta.

terça-feira, 7 de janeiro de 2020


E eis que, de uma forma ou de outra, nos vejo desta forma. Ou melhor, de forma alguma.
Fica por dizer tudo aquilo que dizemos. Nas entrelinhas, quero dizer. Falta o conteúdo, a substância. Falamos e falamos e pouco dizemos. Acreditamos que “isto” é comunicar mas, a verdade é que, pouco sei de ti e do que te rodeia. E vice-versa.
O que me dás, não chega; o te dou, não chega. Faz falta mais que este sentimento de falta. Cicatrizámos erros e cristalizámos esta inexistência de detalhes, de histórias, de tudo o que nos faz ser. De tal forma que, embora sejas a pessoa que melhor conheço, não te conheço de todo.
Diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és, certo? …
Com quem andas?

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

eu


É-me difícil admitir isto. Como um comprimido difícil de engolir. Evito e evito mas acabo por cair nesta realidade: nada em ti me cativa – nada. A casca em que te tornaste, o teu corpo escanzelado, as tuas feições acentuadas e proporções desadequadas, a carência e falta de amor-próprio, a tristeza evidente que tentas mascarar, etc.
Pouco há para gostar em ti. Medíocre, incoerente, hesitante e ansioso. Poucos te conseguem ver como eu o faço. Poucos, porque poucos têm a paciência necessária para suportar os teus melodramas adolescentes.
Existes com o medo de ficar sozinho porque és demasiado sensível para deixar que alguém se aproxime de ti. Colocas-te nestas situações labirínticas e esperas que alguém as resolva por ti. Não enfrentas as coisa. És um imenso desperdício de espaço. 
E é-me difícil admitir isto. Como um comprimido difícil de engolir. Evito e evito mas acabo por cair nesta realidade: olhar ao espelho é incrivelmente difícil quando não se gosta do que se vê.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

trash


Tentei usar as minhas palavras em ti mas, tal como tu, elas não são.
Caídas por todo o lado, apanho-as ao acaso e tento reuni-las, numa esperança vã de que façam sentido – não o fazem. Tentei, então, gastá-las em outra pessoa. Mas, manchadas e desordenadas, também fizeram pouco sentido.
Não consigo passar para o papel os esgarrões do que ficou por dizer. Esta crua tempestade não me deixar dormir, não me deixa viver. Afogo em sentimentos, presos na garganta, que não permito. Então, por vezes, quando a vida me dói e não quero admitir que a culpa é minha, finjo que é tua. E por momentos, quase que fico bem.
Antes de me lembrar que todas as palavras que escrevo hoje, só o são porque um dia pegaste na minha mão e me ensinaste a tua caligrafia.  
Talvez, daí, as minhas palavras serem tão vazias…

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

(no)feelings


Na verdade, não sei como chegou a isto.
Tamanhas foram as vezes em que, no negrume da noite, considerei o que tenho sido. Incerto, volta e meia, deixo-me ficar neste labirinto que criei. Aguentando, totalmente perdido, o dia-a-dia rotineiro que me foi entregue.
Acabo por me isolar mais do que devia. Não falo. Não exteriorizo, não incomodo. Respiro o pouco oxigénio que alcanço e sufoco com tudo o que não consigo verbalizar. Acumulo dores que me vão pesando no peito.
Rasgo, em vão, a pele – tentando limpar os vestígios de quem já me tocou – e forço-me a ser o que já fui. Se é que alguma vez fui mais que isto…
Tem sido difícil. Só queria que o soubesses.

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

dor fantasma


E, então, tu deixaste-me. Foi como perder um pedaço de mim. Um pedaço de mim que, numa tamanha infelicidade, me foi arrancado sem tempo para reacção.
Não doeu. Não mais do que seria esperado. Foi como uma dormência que se instalou em mim, em todo o lado. Um vazio que me preenchia, centímetro a centímetro, empurrando e conquistando, formigando o fantasma no qual me havia tornado.
Mas, então, a dor alastrou-se. Alastrou-se e durou dias.
A dor fantasma? Ainda a sinto. Uma dor excessivamente forte no que perdi. Como se tivesses feito parte do meu corpo.
“Como se”…  

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

f.


Olhando para trás, eu sempre soube.
Enquanto me passavas os dedos pelas costas, arrepiando-me a parte de trás do pescoço, eu costumava pensar nisso. Eram tempos simples, para dizer a verdade. Só eu e tu.
Eu imaginava o que seria de nós e tu sonhavas pelos dois.
Entre o que fomos, nunca me conseguiste curar. As discussões pouco existiam, comunicávamos em silêncios planeados. Eu tentei melhorar. Eu tentei mas acabei por te fechar a porta. Disse-te “Não há mais nada a dizer. É o que somos, o que fomos.” e tu, num momento de franca impiedade, retorquíste “não fomos grande coisa, pois não?” antes de me virares as costas. E quem diria? Tinhas razão. Sempre tiveste. Mas uma terceira pessoa acaba sempre por ser demais, não é? Especialmente quando a fizemos.
Fizemos. Terminámos. E pagámos por isso.
Fomos o que fomos. Nos tempos em que o fomos, éramos eternos gigantes. Sozinhos, na nossa ilha, adormecendo e acordando tarde. Trocámos o dia pela noite e construímos uma rotina destrutiva.
Não estávamos preparados, pois não? Continuo a dizer isto a mim mesmo, uma e outra vez. Eu, eu certamente não o estava. Mas, e talvez seja esta a maior dúvida da minha vida, mas e se tu estivesses pelos dois?
Não fui só eu o culpado. Fui eu, tu e o nosso rebento. Aquele que escolhemos não manter. Aquele que morreu connosco. Ditou um fim que, naquelas noites em que me passavas os dedos pelas costas, arrepiando-me a parte de trás do pescoço, eu imaginava ser por minha causa.
Agora, quando dou por mim, quase digo o teu nome ao chamar por alguém.
Mas tu já não existes. Nem tu. Nem ele. Nem eu.

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

oceanfloor


O embate – a força com que me atingiu – recordou-me o quão frio é o chão quando voltamos a ele. Subo e subo. Por momentos, na ingenuidade do que sinto por ti e na manha das tuas palavras, esqueço-me da realidade.
Não te conheço.
Por entre as tuas meias verdades, perdi o meu rumo. Tentei alcançar-te mas tu insististe em escapar-me por entre os dedos. Caio e caio. O chão está menos frio. As palavras que te entreguei também estão aqui.
A culpa é minha, não é?

terça-feira, 27 de agosto de 2019

can we met?


Isto moldou-me – não te ter. E eu sempre te quis. Sempre. Com todas as minhas forças.
Já estive perto.
Passei por ti, uma e outra vez. Passei e deixei-te ir. Estava cansado. Ainda estou.
No dia-a-dia da tua ausência, respirar-te tornou-se custoso.
Ainda não te tenho. Nunca te terei. Isto eu sei.
E na dor de não te ter, as forças vão esmorecendo. Querer-te ainda é rotina. Fraca rotina.
Sou-me por não te ter – uma tamanha ruína.

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

contaminated.


Deixaste-me habitar em ti. Sem espalhar objectos e deixando o que sou à porta.
Mesmo assim, confiante de que não notarias, comecei por levar pedaços de mim, numa mala esfarrapada, um pouco desfeita. Mas só isso. Nunca me deixaste mudar para lá, para ti. A minha morada continuava a ser a mesma mas, de vez em quando, voltava a casa.
Pedia-te, em silêncio, que acabasses com a minha agonia e me deixasses respirar novamente. Regressar dava-me conforto. Como deitar a cabeça, na almofada, ao fim de um longo dia de trabalho. Ou como deitar o corpo molhado e cansado, na toalha de praia, depois de vir do mar. Mas nunca regressei a ti. Era-me permitido visitar-te, a ti, a minha casa – mas nunca ficar.
Por vezes, nos dias em que me deixavas pernoitar, quis sair. Nunca te contei mas estar ao teu lado, depois de tanto me empurrares para fora, fazia-me sentir sujo. Acreditei que te podia infectar com os meus melodramas e contaminar a tua vida feliz. Então, sem que reparasses, porque ambos sabemos que nunca te importaste, comecei a recolher a tralha que – inevitavelmente – acabei por levar.
Agora tem sido estranho.
Não espero muito de ti. Tive ambições maiores para o que poderias ser. Tentei que mudasses e esse foi o meu erro. Em vez de aceitar que nunca encontraria a minha casa, escolhi acreditar que, um dia, serias a minha. Estava errado.
Só me comecei a sentir desalojado depois de te conhecer.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

[esc]


Já tentei sentir através de outras pessoas, sabes?
Copiava o que sentiam por mim e, por momentos, míseros e efémeros momentos, sentia algo. Alguma coisa. Por pouca coisa que fosse. Mas agora, agora que me obrigo a sentir, o efeito é oposto. Não sinto. Nada. E, durante muito tempo, não conseguia perceber o porquê. Até hoje….
Já consegues compreender, certo? Torna-se bastante óbvio, não dirias? Estava mesmo à minha frente, eu é que não quis ver.
Não sinto nada perto de ti porque não sentes nada por mim. Não há nada para copiar. Sou-te nada.

terça-feira, 23 de julho de 2019

trustme


No enleio dos segredos que preferes não me contar, acreditei que um dia conseguiria derrubar esses teus muros. Estava errado. Finges proximidade, finges apenas.
E eu, na sinceridade do que sinto por ti, que nunca te escondi um segredo que fosse, que cheguei a acreditar que um dia irias mudar, revelo-te agora o meu maior segredo – por vezes, quando me fazes isto e não sou forte o suficiente para o ignorar, preferia nunca te ter conhecido.

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Soldier On. VIII


Os anos foram passando, castigando cruamente quem teve o privilégio de te ter.
Nada foi o mesmo. Por vezes melhor, por vezes pior, mas a vida teve um jeito próprio de continuar – mais amarga e menos cintilante.
Não sei quem tenho sido desde então.
Pedi-te que olhasses por mim e pelos meus e perguntei-me, mais que uma vez, se terias orgulho na pessoa em que me tornei. Contei-te as minhas dores, como se não as tivesses presenciado, e fiz questão de te visitar sempre que possível. Mas a vida tornou-se dura, avô. E tu não estás cá.
Estás em mim – no meu sangue, na minha pele – e, mesmo assim, já não me lembro do timbre da tua voz ou do cheiro da tua roupa. E isso dói-me demasiado.
O espaço vazio que deixaste, deixaste por preencher. E em meu redor, tudo se moldou à tua ausência. Ainda não sei se para pior…
Continua a caminhar a meu lado, pode ser? Por favor.