quinta-feira, 17 de outubro de 2019

f.


Olhando para trás, eu sempre soube.
Enquanto me passavas os dedos pelas costas, arrepiando-me a parte de trás do pescoço, eu costumava pensar nisso. Eram tempos simples, para dizer a verdade. Só eu e tu.
Eu imaginava o que seria de nós e tu sonhavas pelos dois.
Entre o que fomos, nunca me conseguiste curar. As discussões pouco existiam, comunicávamos em silêncios planeados. Eu tentei melhorar. Eu tentei mas acabei por te fechar a porta. Disse-te “Não há mais nada a dizer. É o que somos, o que fomos.” e tu, num momento de franca impiedade, retorquíste “não fomos grande coisa, pois não?” antes de me virares as costas. E quem diria? Tinhas razão. Sempre tiveste. Mas uma terceira pessoa acaba sempre por ser demais, não é? Especialmente quando a fizemos.
Fizemos. Terminámos. E pagámos por isso.
Fomos o que fomos. Nos tempos em que o fomos, éramos eternos gigantes. Sozinhos, na nossa ilha, adormecendo e acordando tarde. Trocámos o dia pela noite e construímos uma rotina destrutiva.
Não estávamos preparados, pois não? Continuo a dizer isto a mim mesmo, uma e outra vez. Eu, eu certamente não o estava. Mas, e talvez seja esta a maior dúvida da minha vida, mas e se tu estivesses pelos dois?
Não fui só eu o culpado. Fui eu, tu e o nosso rebento. Aquele que escolhemos não manter. Aquele que morreu connosco. Ditou um fim que, naquelas noites em que me passavas os dedos pelas costas, arrepiando-me a parte de trás do pescoço, eu imaginava ser por minha causa.
Agora, quando dou por mim, quase digo o teu nome ao chamar por alguém.
Mas tu já não existes. Nem tu. Nem ele. Nem eu.