Deixaste-me habitar em ti. Sem
espalhar objectos e deixando o que sou à porta.
Mesmo assim, confiante de que não
notarias, comecei por levar pedaços de mim, numa mala esfarrapada, um pouco
desfeita. Mas só isso. Nunca me deixaste mudar para lá, para ti. A minha morada
continuava a ser a mesma mas, de vez em quando, voltava a casa.
Pedia-te, em silêncio, que
acabasses com a minha agonia e me deixasses respirar novamente. Regressar
dava-me conforto. Como deitar a cabeça, na almofada, ao fim de um longo dia de
trabalho. Ou como deitar o corpo molhado e cansado, na toalha de praia, depois
de vir do mar. Mas nunca regressei a ti. Era-me permitido visitar-te, a ti, a
minha casa – mas nunca ficar.
Por vezes, nos dias em que me
deixavas pernoitar, quis sair. Nunca te contei mas estar ao teu lado, depois de
tanto me empurrares para fora, fazia-me sentir sujo. Acreditei que te podia
infectar com os meus melodramas e contaminar a tua vida feliz. Então, sem que
reparasses, porque ambos sabemos que nunca te importaste, comecei a recolher a
tralha que – inevitavelmente – acabei por levar.
Agora tem sido estranho.
Não espero muito de ti. Tive
ambições maiores para o que poderias ser. Tentei que mudasses e esse foi o meu
erro. Em vez de aceitar que nunca encontraria a minha casa, escolhi acreditar
que, um dia, serias a minha. Estava errado.
Só me comecei a sentir desalojado
depois de te conhecer.