terça-feira, 27 de agosto de 2019

can we met?


Isto moldou-me – não te ter. E eu sempre te quis. Sempre. Com todas as minhas forças.
Já estive perto.
Passei por ti, uma e outra vez. Passei e deixei-te ir. Estava cansado. Ainda estou.
No dia-a-dia da tua ausência, respirar-te tornou-se custoso.
Ainda não te tenho. Nunca te terei. Isto eu sei.
E na dor de não te ter, as forças vão esmorecendo. Querer-te ainda é rotina. Fraca rotina.
Sou-me por não te ter – uma tamanha ruína.

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

contaminated.


Deixaste-me habitar em ti. Sem espalhar objectos e deixando o que sou à porta.
Mesmo assim, confiante de que não notarias, comecei por levar pedaços de mim, numa mala esfarrapada, um pouco desfeita. Mas só isso. Nunca me deixaste mudar para lá, para ti. A minha morada continuava a ser a mesma mas, de vez em quando, voltava a casa.
Pedia-te, em silêncio, que acabasses com a minha agonia e me deixasses respirar novamente. Regressar dava-me conforto. Como deitar a cabeça, na almofada, ao fim de um longo dia de trabalho. Ou como deitar o corpo molhado e cansado, na toalha de praia, depois de vir do mar. Mas nunca regressei a ti. Era-me permitido visitar-te, a ti, a minha casa – mas nunca ficar.
Por vezes, nos dias em que me deixavas pernoitar, quis sair. Nunca te contei mas estar ao teu lado, depois de tanto me empurrares para fora, fazia-me sentir sujo. Acreditei que te podia infectar com os meus melodramas e contaminar a tua vida feliz. Então, sem que reparasses, porque ambos sabemos que nunca te importaste, comecei a recolher a tralha que – inevitavelmente – acabei por levar.
Agora tem sido estranho.
Não espero muito de ti. Tive ambições maiores para o que poderias ser. Tentei que mudasses e esse foi o meu erro. Em vez de aceitar que nunca encontraria a minha casa, escolhi acreditar que, um dia, serias a minha. Estava errado.
Só me comecei a sentir desalojado depois de te conhecer.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

[esc]


Já tentei sentir através de outras pessoas, sabes?
Copiava o que sentiam por mim e, por momentos, míseros e efémeros momentos, sentia algo. Alguma coisa. Por pouca coisa que fosse. Mas agora, agora que me obrigo a sentir, o efeito é oposto. Não sinto. Nada. E, durante muito tempo, não conseguia perceber o porquê. Até hoje….
Já consegues compreender, certo? Torna-se bastante óbvio, não dirias? Estava mesmo à minha frente, eu é que não quis ver.
Não sinto nada perto de ti porque não sentes nada por mim. Não há nada para copiar. Sou-te nada.