terça-feira, 23 de julho de 2019

trustme


No enleio dos segredos que preferes não me contar, acreditei que um dia conseguiria derrubar esses teus muros. Estava errado. Finges proximidade, finges apenas.
E eu, na sinceridade do que sinto por ti, que nunca te escondi um segredo que fosse, que cheguei a acreditar que um dia irias mudar, revelo-te agora o meu maior segredo – por vezes, quando me fazes isto e não sou forte o suficiente para o ignorar, preferia nunca te ter conhecido.

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Soldier On. VIII


Os anos foram passando, castigando cruamente quem teve o privilégio de te ter.
Nada foi o mesmo. Por vezes melhor, por vezes pior, mas a vida teve um jeito próprio de continuar – mais amarga e menos cintilante.
Não sei quem tenho sido desde então.
Pedi-te que olhasses por mim e pelos meus e perguntei-me, mais que uma vez, se terias orgulho na pessoa em que me tornei. Contei-te as minhas dores, como se não as tivesses presenciado, e fiz questão de te visitar sempre que possível. Mas a vida tornou-se dura, avô. E tu não estás cá.
Estás em mim – no meu sangue, na minha pele – e, mesmo assim, já não me lembro do timbre da tua voz ou do cheiro da tua roupa. E isso dói-me demasiado.
O espaço vazio que deixaste, deixaste por preencher. E em meu redor, tudo se moldou à tua ausência. Ainda não sei se para pior…
Continua a caminhar a meu lado, pode ser? Por favor.

sexta-feira, 12 de julho de 2019

inútil


Em retrospectiva, nunca fui muito bom com palavras. Apenas sabia deitá-las, de forma bonita, num papel. Transmitia um sentimento qualquer que sentia, ou não, e isso concretizava-me. Vê-las espalhadas pelas páginas em branco, contornando cada parcela do que eu queria ser, saciava-me uma qualquer sede de intelectualidade que nunca irei possuir.
Mas agora, agora a situação é diferente. Repetidamente as palavras continuam a falhar-me. Se atingi a minha quota-parte, precocemente, não sei dizer. Não sei. Não consigo.
Faltam-me as palavras. Faltam-me os pontos finais.
O que sei, é que já senti isto. Isto, isto que sinto neste momento. Vezes de mais. E consegui, sempre, escapar através dos parágrafos que jogava fora – parágrafos tão descartáveis quanto eu. No entanto, ultimamente não o tenho feito.
Aqui estou eu: descartável, secundário, segunda opção.
Repito estas palavras, na minha cabeça, uma e outra vez. Incapaz de as transmitir, de passa-las para o papel. Não sou capaz. Já não consigo. Até isso perdi…


quarta-feira, 3 de julho de 2019

is this it?


Trouxe comigo – debaixo do braço, pesada e como se não me custasse – a tua falta de vontade. Tomei-a como minha. Abracei-a como uma amiga que não via há demasiado tempo e, juntos, recordámos histórias antigas.
Falámos sobre a primeira vez que notei no quão insignificante eu te era. Na ufana dor que a lâmina fez ao trespassar a minha barriga. Recontámos as horas que esperei por uma palavra tua, na margem do desespero, engasgado em palavras que não te podia dizer.
Não dei por não te ter. A ânsia de te perder tornou-me um cego precoce. Escolhendo não ver que apenas me procuravas nas horas vagas. Preferindo não notar que só era teu quando te dava jeito.
E, depois de todo este tempo, de uma forma doentiamente egoísta, a indiferença é tudo o que me resta de ti.
Olha só. Vê bem no que me tornaste.