Sempre
me ensinei a enfrentar a dor – não fugir dela.
Olhar
nos olhos do que me faz mal até criar a imunidade necessária para seguir em
frente. Tem sido assim, desde que me lembro. E oportunamente contar-te-ei sobre as vezes que me deixei cair só para
ver se me conseguia levantar.
Mas
agora, agora que pouco tenho para te dizer, resta-me expor-te o meu último segredo.
Tu,
a quem escrevo todas as minhas palavras; de quem sinto falta todos os dias; que
me manchou o casaco cinza com aquele cheiro penetrante, não existes.
As
minhas palavras são sem destinatário. Sempre foram.
E
tu, que as leste como se cada letra fosse uma bala para o teu peito, eras
alguém que me ouviu quando o resto do mundo estava surdo para mim.
A
dor, eu sinto-a. Sinto-a e continuo. E de tanto a enfrentar, de tanto sentir, acabei
por ficar assim. Entorpecido.
Por
tua causa.