sábado, 27 de janeiro de 2018

27. (thetalesofalwaysandnever)



Ainda guardo aquela moldura. Escondida na prateleira do meu quarto, dentro de uma caixa coberta de pó. Pus cadeados fictícios em seu redor e proibi-me de a abrir. Muitas vezes esqueço-me dela. Da caixa, da moldura. De tudo o que ficou capturado na fotografia que lá envelhece. As pessoas permanecem as mesmas mas o tempo parou por ali.
E sabes o que me mete medo?
Não é a dor que aquela fotografia possa causar, não – é o facto de acreditar que nunca mais conseguirei igualar tamanha felicidade.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

16. (disposable)

Pessoas temporárias têm coração de papel.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

3. (perder)



- Continuas a perder-me.
A tua voz não tremeu quando o disseste.
O quarto estava escuro. Conseguia sentir-te deitada, no teu lado da cama, ambos vestidos, fixando sem ver. O silêncio era quebrado apenas pela tua respiração. Estava frio – tem estado frio.
- Quem te disse que quero que fiques?
Olhaste para mim. Mesmo sem te ver, conseguia saber a tua linha de pensamento. Demasiado composta para elevar a voz, procuravas a pergunta certeira para me magoar da mesma forma que eu tinha acabado de o fazer.
Demoraste.
- O que queres, então?
Rancorosa. Eras sempre sublime na forma em que atacavas a minha insegurança. Apenas eu saberia. Apenas nós. Se ainda fossemos nós.
- Não sei.
Esta era a verdade. Eu não sabia o que fazer comigo mesmo. A ridícula ideia de partilhar uma vida a dois nunca tinha estado nos meus planos. Mas eu nunca to escondi. Aliás a nossa primeira discussão tinha sido precisamente porque um dia te confidenciei que o meu objetivo de vida era não precisar de ninguém. E após todo este tempo, ainda aqui estávamos. Eu sem saber o que ser. Tu julgando-me pelo que não sou.
- Não sabes?
Cuspiste mais uma vez. Desta vez a tua voz tremeu. Estavas num ponto de rutura. E eu não te podia culpar. Sem forças para mais qualquer coisa e sem qualquer vontade de dar continuidade àquela luta, soltei um:
- Não.
Sem aviso, levantaste-te, dirigiste-te a mim e bateste a tua mão na minha cara. Violenta. Seca.
- És um cobarde! – Disseste. Ainda serena. Ainda composta.
Não respondi. Não reagi. A verdade é que aquela atitude tinha sido o gesto mais surpreendente de toda esta história que ambos estragámos. E quase que to quis dizer. Mas não. Permaneci em silêncio. Sabia que ias quebrar. Tu só querias uma reação. Eu só queria que te calasses.
- Pois. Mas eu sei o que quero. E não é isto. – Continuaste perante a minha indiferença.
- Então porque ficas?Xeque, pensei. Tudo isto era um jogo que eu estava prestes a vencer. Sem qualquer prémio ou louvor.
Ficaste em silêncio. Não teres resposta custava-te. Pior ainda era saberes o quão dolorosa seria a resposta que estavas prestes a dar.
- Não sei. – Sussurraste. Derrotada. Patética.
Não sei até que ponto nos destruímos. Nem compreendo porque o continuamos a fazer. Mas aquele era o fim. Um fim.
- Então diz-me: Qual de nós é o maior cobarde?
Xeque-mate.

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

2. (calor)



Está frio.
Em vez de me tapar, deixo a manta espalhada pelo chão do meu quarto e, de dentro do mesmo, não ouço o vento que já fora ruge. Por algum motivo, acabo sempre por escrever quando faz mais frio embora eu nem sinta as mãos. “Mãos frias, coração quente.”, certo? Então que dizer de mim mesmo quando nem as sinto?
O eco da música que embate contra as paredes, adormece-me os sentidos. E tudo o que me dói, eu deixo ser sugado pelo buraco que habita no meu peito.
Nestes dias de frio, dou por mim a imaginar-te. Ou melhor, obrigo-me a imaginar-te – não sei mais recordar-te. Tento contar cada sorriso, cada sonho, cada palavra jogada fora numa qualquer folha amarrotada, cada lágrima que engoli a custo.
Levanto-me e abro a janela.
Afinal nem está frio lá fora. Está sol, está calor. O frio sou eu. Só em mim há tempestades. E tem feito muito frio desde que me esqueci de sentir.