Estou
no chão. Não sei como vim aqui parar. Está tudo tão silencioso e escuro. Dói. Não
sei porquê mas dói. Cá dentro, no vazio do que sou, dói. Não consigo ignorar. Tento
levantar-me mas ninguém me ajuda – não há ninguém para ajudar. Em meu redor
ouço passos que me evitam à vista de tamanha ruína. Como cheguei aqui; de onde
caí? Sinto que este sempre foi o meu lugar. Por vezes, quando os passos não se afastam
e eu os deixo aproximar, penso que estes darão lugar a uma mão amiga que me vai
ajudar a levantar. Mas não. Quando chegam perto, queimam-se. E, como mecanismo
de defesa, pontapeiam-me. Eu fico sem ar e controlo o grito. A agonia quer escapar-me
pelos olhos mas não o permito. Ouço o eco dos passos já distantes, fugindo do que
sou – se é que chego a ser alguém. Como vim aqui parar? Só conheço esta
escuridão, este silêncio, este eu. Alguém
me vai ajudar?
domingo, 10 de abril de 2016
hoje e sempre.
Lembro-me
de te ir visitar ao hospital assim que nasceste. Pelo meio de felicitações e congratulações,
perguntaram-me se te queria segurar. Eu tive medo. Eras tão pequena e
inofensiva. Não me sentia preparado para agarrar aquela pequena vida, tão nova
e preciosa, com as minhas mãos. No entanto, engoli o meu medo e segurei-te –
até ao dia de hoje.
Ainda
tenho esse medo, sabes? Quando sei que algo te aflige, o mundo para. Se a vida
se vira contra ti, eu quero lutar contra ela. As minhas palavras são incapazes
disso, bem sei, mas também sei que sabes que faria tudo por ti – tudo me é
indiferente menos tu. E
sempre que as coisas ficam más de novo, eu regresso àquele momento no hospital. Continuas a ser aquele pequeno rebento, tão mágico,
livre das partidas e das cicatrizes do destino. Abrindo os olhos e vendo-me
pela primeira vez. E eu ainda te seguro. Hoje e sempre.
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