Não sei como eras com outras
pessoas. E, sinceramente, não tenho vontade de o saber. Mas sei que comigo o
teu orgulho atingia grandes proporções. Nós discutíamos pouco. Regra geral
quando fazias algo que eu não gostava eu demonstrava-te e dizia-to. Nunca
ficava chateado, nunca. Sentia uma espécie de perda mas não admitia. A negação
era forte na nossa relação. Sempre o foi. Mas não ficava chateado, ficava magoado.
Passava-me sempre rápido porque um dia disseste-me que eu não sabia
perdoar e admito que foi das coisas que mais me custou ouvir na vida.
No entanto, quando tu não gostavas
de algo, as coisas eram bem diferentes.
Agora que penso nisto deve ser
assim com muitos casais. A verdade é que nunca passei por isto com outra pessoa
porque, simplesmente, elas nunca foram interessantes o suficiente para que eu
me importasse com opiniões ou sentimentos alheios. Portanto foi tudo muito novo
para mim. Quando eu deixava de falar com alguém era porque não queria mais
conversas com aquela pessoa e porque já tinha o que queria. Quando eu tinha uma
opinião eu dizia-a por muito que doesse e não me importava com mais nada. Quando
eu confiava era de forma absoluta. Mas tu nunca foste assim.
Eu tinha que interpretar os teus
silêncios e inevitavelmente controlar o receio de que tivesses perdido o
interesse em mim. Eu tinha que adivinhar que opinião tinhas guardado e puxá-la
a ferros. E – principalmente – tinha que confiar pelos dois. Isto deixava-me
furioso mas, como sempre, eu deixava passar porque não queria ser infantil e
ficar chateado com a tua maneira de ser. Assim sendo era sempre eu a dar o
primeiro passo.
Lembraste de quando estávamos no
meu quarto, quando vinhas passar os fins-de-semana comigo, e te chateavas
comigo? Eu agarrava-te por trás, bem forte, apesar de não fazeres qualquer
tentativa de fugir, e dizia: - Diz-me.
Lembro-me de te agarrar e cheirar-te
o cabelo. Nunca gostei tanto de um cheiro. Antes de perguntar já sabia que ia
encontrar o teu silêncio e não me importava. Acho que também tu, secretamente,
gostavas do que se ia passar depois e mantinhas a tua pequena birra. Os meus lábios
encontravam o teu pescoço, como gravidade, e eu sentia o quão instantaneamente arrepiada
tu ficavas.
Eu não desistia. Tu não impedias.
Depois quando não aguentavas
mais, viravas-te para mim e dizias: - Parvo., antes de entrelaçares as pernas à
minha cintura e me dares um beijo. Eu sorria e perguntava-te novamente. Tu desvalorizavas
a situação e dizias que já tinha passado e tudo voltava ao normal. Um beijo
atrás do outro que levavam a um encaixe já familiar. Era sempre assim. Mas já
não é.
Hoje lembrei-me disto. Lembrei-me
de que já não vou dar mais passo nenhum. E senti outra vez aquela sensação de
perda que sentia quando fazias algo que não gostava. A diferença é que hoje não
o nego. Doeu.