A
minha pele sofre por mim num murmúrio silencioso. Vejo-a marcada até à exaustão
e não consigo evitar ficar triste por ela. Se ela falasse, iria pedir-me para
parar de repetir os mesmos erros e as mesmas pessoas. Diria que o espaço para
cicatrizes está a ficar curto. Contaria que tem frio e não sente calor de parte
alguma. Mas que sei eu? Preveniu-me que assim seria e mesmo assim não percebi
que nada de bom viria de tão doce semelhança. Agora vejo mais uma marca na
carne. A ferida ainda exposta já não sangra mas dói. E dói tanto hoje quanto
ontem.
domingo, 27 de outubro de 2013
other side
No
outro dia, quando me disseste que gostavas que eu me abrisse contigo, notei que
me conhecias mais do que eu pensava. Mas de seguida quando ficaste ofendido por
pensar que não confiava em ti, deste um passo atrás. Não te menti. Gostava que
soubesses que não foste a primeira pessoa a desejá-lo ou a perguntar o que eu
tenho. Gostava que percebesses que quando me perguntam o que tenho e respondo
que não tenho nada, é literal. Sinto que não tenho nada. Nada nem ninguém. E é
isso o que tenho. Um nada literal que me corre no peito e me deixa assim com a
sensação desesperada de vazio.
Eu
sei o que irias dizer. Mas tu não sabes o que é tentar e falhar. Tu nunca
saberás isso e ainda bem. Espero que continues a conseguir mesmo sem tentar
porque o mereces.
No entanto eu só gostava que entendesses que
confio em ti, dentro do possível, e que não te menti. E se algum dia entenderes
que o “nada” é a resposta mais verdadeira que te posso dar, me consigas
explicar o porquê de assim o ser. Porque aparentemente, embora não me conheças
na totalidade, estás quase lá. Pode ser que tu tenhas uma outra resposta que
não a minha.
domingo, 20 de outubro de 2013
we move lightly
Uma
coisa consigo escrever sobre ti: metes-me medo. Pareces deixar-me coberto de
cicatrizes mas mesmo assim eu não paro. Não sei para onde me levas mas continuo
a ir, cegamente. Não te trato como uma qualquer e talvez merecesses que assim o
fosse. E isso mete-me medo. Temos esta coisa, que não sei explicar bem, de nos
encontrar por muito tempo que passe e sermos o mesmo de sempre. Como se nada se
tivesse passado antes. E também isso me mete medo. Porque eu sou mau, directo e
frio. E contigo, quando o sou, quando sou o que sou, eu tento evitar sê-lo.
Acho
que somos um ciclo. Tudo volta a isto. Movemo-nos levemente entre outras
pessoas, outros lugares, e encontramo-nos. Evitamos o que sentimos porque não
seria fácil admitir o que quer que seja que existe entre nós e repetimo-lo
vezes sem conta.
Existem,
claro, momentos em que falamos de “nós” como se isso fosse uma realidade. Tu
falas dos ciúmes e eu concordo. Eu digo que te quero aqui e tu dizes sentir o
mesmo. Ambos provocamo-nos e ambos pedimos para parar. Mas não passa disso. Não
sei no que nos iríamos meter. E isso mete-me medo. Quase tanto medo como quando
eu digo que és minha e não sei se realmente é essa a verdade.
Tu
tens as tuas pessoas, eu tenho as minhas. E quando estou com outras pessoas
quase que penso que consigo não te ter na minha vida. Isso é uma mentira que
tento dizer a mim mesmo, claro. Somos o pensamento que dois cérebros partilham.
Como é que alguém pode fugir disso? Como é que eu posso fugir de ti?
Mas acho que o
que me deixa realmente apavorado, é que embora as minhas palavras estejam
bloqueadas, eu tenha enchido uma página inteira – quer elas sejam boas ou más –
só pelo simples facto de as teres chamado.
E o que é que
isso diz sobre ti? Ou pior, sobre mim?
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
disgust.
São
só palavras, digo para mim mesmo. São só palavras carregadas de acusações e de
desapontamento. Não me podem afectar, não me conseguem atingir. Mas essas palavras
são acompanhadas por olhares molhados de repulsa. Cospem a dor na minha cara e
não temem. Eu ouço-as com atenção, nunca antes pensei que as pudesse ouvir, e
enquanto dentro da minha cabeça o eco da sua simplicidade grita eu tento
ofuscar a pergunta que ressalta no meio destas: porquê que sinto uma dor
dilacerante dentro de mim se estas não me conseguem afectar; não me conseguem atingir?
Esqueço-me
sempre que as palavras formam frases e as frases cortam que nem faca. Especialmente
quando são atiradas da tua boca.
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