quarta-feira, 15 de agosto de 2012

tempo.

Os meses foram passando cruéis e ásperos sem aviso prévio ou convite. As palavras tornaram-se escassas e despropositadas, cativas numa qualquer jaula que fechei sem saber o que fazia. A mão que abri de ti numa tentativa vã de sanidade fechou, finalmente, sem ter agarrado nada. Tornei-me mais frio do que o costume desejando secretamente não o ser mas sem fazer qualquer tentativa para o impedir. Sentei-me no colo quente de fantasmas sem os conseguir encarar. Cambaleei sem medos pelo relógio escutando com atenção o eco do pequeno tique-taque. E, durante todo este tempo, eu só desejei tatuar a tua memória de mim. 
 M.S.



sábado, 11 de agosto de 2012

under ground kings

Ninguém imagina o quanto eu tento escrever. As minhas palavram tornaram-se tão escassas, quase que em extinção. Não sei mais como usá-las para dizer o que penso e acho que tudo se deve ao facto de já não sentir. Lembro-me de antes dizer que não sentia, que era frio e muitos mais adjetivos tais mas nunca fui assim – nunca assim tão frio. Obrigo-me a escrever para sentir, para ser um misero contorno das palavras que escrevi há muito tempo atrás. Não consigo perceber onde fiquei. Nada me entusiasma, nada. 
Na rua, quando os meus passos se destinam a um local qualquer, as pessoas passam por mim na rua e cumprimentam-me sem perceber que quando retribuo é por educação e apenas isso. Mas ironicamente são essas as pessoas que melhor me conhecem. Embora não convivam comigo, sendo apenas aquilo que se pode chamar de conhecidos, observam-me como alguém arrogante, gélido e a roçar pelo mal-educado. Acaba por ser estranho. As pessoas que convivem comigo no dia-a-dia e que ouvem tudo o que me sai da boca diariamente acabam por acreditar que eu não sou assim. Defendem-me e dizem que posso não ligar muito ao que me rodeia mas que tenho coração, que sou cruel com as pessoas mas que no fundo estou a brincar e preferem rir das minhas piadas sarcásticas ou nos meus sorrisos plásticos. Oh, como elas se enganam – não sei onde está o meu coração, quando sou cruel é porque não me importo com o que as pessoas sentem e as minhas piadas não são piadas mas sim o que penso verdadeiramente. 
O único problema em ser assim é que a pessoa que sou esta semana não sabe nada. Aprendeu que as palavras são vento e perdeu todas as que disse ou ouviu. Não as consegue passar para o papel e tenta acreditar que não as precisa. Mas essa não é verdade…