sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

algo teu

Sentado ao teu lado, enrolado no cobertor cinzento que tanta vez nos aqueceu do frio que cresceu entre nós, estava o meu coração. Ronronava junto a ti, no sofá gasto por arrependimentos e consequências, esperando por algo que nem ele sabia. O sol tinha-se posto e o vento suspirava tentando reavivar as labaredas do nosso amor. De voz tanto ou pouco rouca disse-me que os seus lábios não segredavam mais palavras bonitas e carregadas de sonhos. Pediu-me entre murmúrios ocos para escutar no fundo de si aquele silêncio que ecoava o teu nome e acabei por fechar a caixa de música quebrada que me ofereceste, percebendo que a sua melodia não invocava o que perdemos. Quando me sentei ao seu lado, senti-o entre nós, batendo cada vez menos. Metade de metade, não perguntei mais nada porque entendi o que vinha depois – ia perder algo meu sem nunca ter recebido algo teu em troca. E quando ele deixou de bater, morrendo-me no peito porque afinal não existia sofá algum, olhei para ti de lágrima nos olhos e sorriso no canto da boca e disse: Eu estou bem. Eu estou bem.

M.S.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

strange ignorant

Olhas para mim. E eu devolvo-te o olhar só para te ver desviá-lo – um olhar cru e seco como se tivesses visto um lugar vazio. Por instantes, quieto pela incredibilidade, o meu mundo pára. Pára mas apenas por segundos. Logo tudo volta ao seu ritmo alucinante a que me habituei: as gargalhadas que se misturam com a música surda dos movimentos, o suor do fumo que ocupa florestas de luz, os locais cheios do fogo da alegria. Tudo continua como se nada tivesse sido, muito embora não consiga ignorar a pequena pontada no meu peito. O ar chega-me curto e não consigo respirar como antes. Tudo arde dentro de mim mas não ouço mais o teu nome. A única razão de te reconhecer na rua é porque um dia exististe de muita forma em mim. Devo-te muito, aceito isso, mas isso não faz de ti um ser superior. Até entendo que não encontres a coragem necessária para me encarar e que logo fujas de tudo o que te é difícil. As minhas respostas nunca iam ser as que querias ouvir e compreendo que não queiras sentir novamente o gume das minhas palavras. Persistes, no entanto, num ego tal de quem não se lembra quem o ensinou a agir desta forma. As tuas acções nunca me farão mazelas e, muito embora penses o contrário, és-me completamente insignificante. As ruas até podem ter-se tornado mais pesadas agora que nelas caminhas mas não sou eu o chão que pisas.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Não consigo mais falar contigo – as minhas palavras estão em branco.