domingo, 13 de novembro de 2011

castelo de cartas

Foi tudo uma consequência. Senti o nevoeiro cerrado, como num mar revolto, passar-me pela pele enquanto remava contra a maré. A madeira do pequeno barco em que me deixaste rangia. O cheiro salgado da tua maneira de ser trovejava sem dó ou piedade. O teu frio cortante desaba como um castelo de cartas sobre mim. Não havia som para além do constante eco oco do remar. Todos os cortes, cristalizados na epiderme, ardiam eternizados perante a escassez do que me acompanhava. E enquanto o isolamento me batia na cara como que uma lição, eu ia-me apagando a cada movimento dos remos. Não havia pontes que me levassem a ti, asas que te trouxessem de volta, nada. Mas foi tudo uma consequência. De toda a incerteza que era ter-te, o melhor que consegui foi construir estas muralhas, mergulhar para todos os vestígios e remar até que eles se formassem num novo conjunto de areias livre de ti. Ainda não sou capaz de te dizer se resultou mas espero sinceramente que me guardes como a única pessoa que conseguiu escapar a esse teu feitiço que enraizou em meio mundo. Não irei negar, no entanto, que enquanto eu existir serás sempre a maior parte do que fui. E essa será a única coisa que guardarei de ti enquanto remar para longe…

sábado, 12 de novembro de 2011

Tudo seria como estava. Sabes disso, não sabes? Tu serias minha e serias a mesma pessoa de sempre. Podias não saber quem eras, mas eu era das únicas pessoas que sabia e mesmo assim queria estar contigo. Eras como eu, e sabes bem que embora tudo tenha mudado, se hoje estivesses ao meu lado, ainda serias dessa forma. Evoluiríamos os dois, evoluiríamos para ser o mesmo e completar a alma que ambos carregamos. Não posso adivinhar o futuro induzindo um passado que não aconteceu, mas suponho que saibas que se tivéssemos ficado juntos, tudo estaria igual. No entanto, tu foste a única pessoa que baixou as asas porque eu não tentei sequer perdoar e isso fez-me ver que te tinha perdido para sempre. Eu perdoo sempre. E se tu fosses a pessoa que eu conheci, saberias isso. Nunca iria esquecer, admito isso, mas iria habituar-me ao teu percalço e ultrapassaria qualquer trambolhão que tivesses dado. Desististe de mim, porque tinhas medo de ser feliz. Eu entendo, também eu odeio sonhar. Também eu sei que os sonhos não são realidade, mas o facto de teres sido tu (a pessoa que era a mais semelhante comigo no mundo inteiro) a desistir de mim, deixou marcas que acredito nunca superar. Tudo seria como estava, mas não foi assim que aconteceu, e hoje eu ainda tenho saudades tuas; ou melhor - nossas.- 2010

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

(a)

Tive muita pena de ti enquanto rastejavas aos meus pés e constantemente ouvias-me dizer que não te queria mas se tu não tinhas amor-próprio, como querias que eu o encontrasse por ti?! Espera! Nunca te menti, não vou começar agora. Pronto, eu admito, não tinha assim tanta pena. Quer dizer, não notavas que eu nem perguntava por ti? Ou que não reparava quando estavas junto a mim? Nunca foste uma prioridade e não esperes que me desculpe por isso. Mas agora, fico feliz por finalmente reparar que te encontras num outro sítio senão no meu chão e que persegues outra pessoa qualquer, questionando, oferecendo, torturando. Mas não te valorizes em demasia – no outro dia quando acordei, estranhei o meu chão estar tão sujo. Odeio admitir mas os teus joelhos eram uma grande ajuda na limpeza. E eu que gostava tanto de ter o chão mais brilhante da cidade…

P.S. Não penses que isto é um apelo, prefiro limpar a casa, sozinho, do que ter-te de volta.